O fio do Bigode

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A palavra bigode é de origem incerta, mas pode ter vindo de uma antiga expressão alemã pronunciada em juramentos: “bi gott”, ou seja: “por Deus”. Um fio de bigode vale mais do que qualquer contrato escrito, palavra dada é palavra de honra, palavra de cavalheiro.

Um grande exemplo brasileiro foi Visconde de Mauá, que se tornou o homem mais rico do Brasil de sua época. Como era liberal, abolicionista e contra a Guerra do Paraguai, foi vítima de perseguição política pelo Império e faliu.

Ao invés de deixar os credores na mão, vendeu todos seus bens, pagou a todos, limpou seu nome e recomeçou, com a cabeça erguida.

E em cima desse tema que eu gostaria de discorrer algumas palavras, hoje temos uma economia capenga e cheia de rombos, pois muito foi se perdendo ao longo de décadas desse hábito de honrar a palavra. Não sou muito velho, mas me lembro de meu avô conversar com o pai dele sobre como iria honrar as contas do mês e isso há 20 anos já se fazia a famosa nota promissória, ela é um título cambiário em que seu criador assume a obrigação direta e principal de pagar o valor correspondente no título.

Acredito que foi a partir da criação dela que começamos a perder um pouco da nossa honra e hombridade. Ela dava a segurança de quem estava vendendo que iria receber de uma forma ou de outra o valor comprado pelo cliente.

Antes o máximo que se tinha era o famoso caderninho de anotação, para que o dono do estabelecimento não se perdesse em suas vendas e recebimentos. No mais era no acordo de cavalheiros e todo fim de mês esse era acertado.

É claro que a nossa colonização e a conduta de nossos colonizadores nos fizeram a ter atitudes drásticas para podermos sobreviver, mas mesmo com todas as dificuldades muitos ainda levavam a risca esse comportamento.

E hoje um dos problemas de nossa economia é justamente esse, a falta de honra na realização de negócios.

E às vezes nem é só o pagamento, mas a entrega de produto não conforme, fora do prazo acordado, recebemos até aquilo na qual não compramos e temos uma baita dor de cabeça para fazer a compra.

Às vezes me pergunto se tivéssemos mantido a tradição de honrar nossos compromissos, será que as instituições financeiras seriam potencias como são atualmente?

Hoje temos várias empresas que precisam retirar uma quantia de dinheiro para comprar um equipamento ou até mesmo comprar uma linha de equipamentos e essas instituições além de penhorar os equipamentos, pedem bens em garantia para o caso do não pagamento do financiamento.

Entre essas e outras causas encolhemos o nosso crescimento, retardamos a produção de alimentos, e anulamos a nossa economia.

Mas se chegamos nessa situação com certeza temos que parabenizar as pessoas que se acharam mais esperta que as outras, por muito tempo fomos uma nação cega, surda e muda, que se calava para os problemas nacionais que afetavam diretamente o nosso bolso e o nosso desenvolvimento.

Nos últimos dias é que estamos voltando a se levantar e brigar por aquilo que é correto.

Mas mesmo assim em meio a todos esse turbilhão em que vivemos ainda encontramos empresas que tentam manter velhas tradições e honram com suas obrigações mesmo não assinando contrato, promissória ou qualquer outro tipo de acordo, ainda fazem negócios somente respeitando o Fio do Bigode.

Se resgatarmos esse costume, seremos capazes de enfrentar qualquer crise financeira/politica que vier pela frente, pois nesse caso a circulação de dinheiro e garantias não se faz necessário para a concretização de um negócio, as partes entrem em acordo de como pagar / entregar o produto e a economia continua caminhando. E circulo tende a se fechar a partir do momento em que todos nós tivermos a consciência de quão bem essas atitudes nos beneficiam.

Esse não é um texto político, é um resgate histórico na qual me deparei nos últimos meses tanto na vida profissional quanto na vida pessoal. Tive experiências positivas e negativas a esse respeito e pelo que percebi dificilmente as pessoas querem resgatar esse tipo de costume.

Temos que criar um índice que me mede o fio do bigode, assim como medimos o risco Brasil e a evasão ou invasão de dólar no país. À medida que o índice subir, consequentemente terá quedas nas incertezas e nas preocupações de nossa população e com isso uma melhor distribuição de bens e riquezas de acordo com o esforço de cada um.

Esp. Rafael Resende Silva

Engenheiro de Alimentos

Skype: eng.rafaelrs

 

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