Impactos da seca devem aumentar preço da carne

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Principais componentes da ração que alimenta aves e suínos no Estado, os cereais devem elevar, mais uma vez, os custos para a produção de proteína animal

A forte estiagem que castiga o Rio Grande do Sul deve fazer produtores de milho e soja perderem, respectivamente, 70% e 50% das lavouras. Principais componentes da ração que alimenta aves e suínos no Estado, os cereais devem elevar, mais uma vez, os custos para a produção de proteína animal. O resultado será um novo aumento no preço da carne para os consumidores.

Entidades ligadas ao setor foram unânimes: não há outra alternativa que não seja o repasse de preço para o consumidor. Já é o terceiro ano seguido de estiagem no Rio Grande do Sul. Na safra 2021/2022, porém, a falta de chuvas chegou mais cedo, o calor está mais forte e os criadores serão fortemente impactados. No mercado, os reflexos poderão ser observados já em fevereiro e março nas carnes de aves, de acordo com a  Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav).

“O setor não vê outra alternativa a não ser a readequação de preços. Precisaremos fazer ajustes necessários para não produzir de mais com os custos elevados. Devemos ter impacto disso no mercado já no próximo mês, com diminuição na oferta do produto”, avalia o presidente da Asgav, José Eduardo dos Santos.

“Precisamos fazer as medidas necessárias para o setor não parar totalmente. A falta de produto iria inflacionar ainda mais. O aumento de preço é consequência. Nem posso dizer quanto, mas é consequência e com certeza vai aumentar”, afirma ele.

Na suinocultura, a situação é um pouco diferente. Com a crescente alta na produção após a constatação da peste suína na China, o gigante asiático desacelerou o ritmo nas exportações da carne de porco brasileira. O resultado é uma grande oferta para pouca procura interna.

“O produtor não tem muita alternativa. Os frigoríficos têm ofertado preços muito abaixo dos custos de produção. O repasse seria necessário para equilibrar a conta. O problema é que não se consegue repassar, pois trava na hora da compra do produto final. Conversando com o atacado e o varejo do Brasil, o que nos colocam é que as vendas estão paradas, mesmo com a carne suína mais em conta”, relata o presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs), Valdecir Folador.

O presidente da Acsurs afirma que os criadores irão uma reação do mercado, com aumento de vendas. “Não tem muito o que fazer. A crise de preços ocorre por dois fatores: pela oferta maior que a demanda e pelo alto custo de produção que a estiagem provoca”. Na quarta-feira (26), Folador levou demandas do setor para a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina.

Glademir Luiz Mecca, gerente de frigorífico e suinocultura da cooperativa gaúcha Santa Clara, acredita que não só há espaço para repasse de preços também na carne suína como acredita ser a única alternativa para o setor. “O preço de venda da carne suína no final de 2020 era maior do que no final de 2021. Vai ter aumento de preço, não tem outra situação, impactando diretamente o consumidor. A carne suína está muito distante dos preços que deveriam estar na equiparação com as outras carnes. Não tem outro jeito senão repassar o preço”, afirma.

Mecca reconhece, entretanto, que há dificuldade neste repasse por conta da alta oferta de carne suína e pela diminuição do poder de compra do consumidor interno.

“Tivemos o efeito China. Quando deu a peste suína africana, a China produzia 54 milhões de toneladas de carne. Caiu para 18 milhões de toneladas. Então eles começaram a comprar – e pagaram caro, pois precisavam. A suinocultura teve um aumento de produção. Esse aumento está chegando agora e a China tirou o pé. Chegamos ao final do ano com mais oferta no mercado e, consequentemente, os preços caíram”, relata o gerente de suinocultura da Santa Clara.

Na cooperativa Languiru, a alternativa será a desaceleração da produção.

“Não vejo margem para subir muito preço. O poder de compra do consumidor está baixo. Por isso, faremos diminuição nos abates. Vai ser um ano muito difícil para a produção de proteína animal”, prevê o superintendente industrial de fomento agropecuário da Languiru, Fabiano Leonhardt.

Produtores gaúchos terão que importar milho novamente

Com 70% da produção gaúcha de milho perdida pela seca, os produtores de proteína animal terão que importar o principal cereal na composição da ração de aves e porcos de outros estados brasileiros. A situação não é novidade: no ano passado, os criadores do Rio Grande do Sul já precisaram adquirir milho no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e até em outros países como Argentina, Paraguai e Estados Unidos.

“Estamos no momento da colheita de safra de milho e os custos estão subindo. A gente nunca vê isso. Nessa época, quando colhe, geralmente baixa os custos”, relata o superintendente industrial de fomento agropecuário da Languiru, Fabiano Leonhardt.

O produtor de aves Pedro Luis Utzig, da Nutrifrango, registrou custos já acima dos praticados em 2021. “As empresas já estão entrando ano com dificuldade pelos custos dos insumos. No milho projetamos R$ 80,00 a saca (de 60 quilos) e estamos pagando R$ 105,00”, afirma ele.

“Quem consegue comprar milho futuro pode fazer bons negócios. Mas se o produtor não vai colher, não vai entregar nada. Hoje, já estamos nos abastecendo com milho do Centro-Oeste, e temos custo alto de frete e de imposto. O milho do Mato Grosso fica na faixa dos R$ 115,00 (a saca). A Argentina, que vive o mesmo problema que nós de estiagem, ainda não consolidou sua safra”, diz Utzig.

Segundo José Eduardo dos Santos, presidente da Asgav, “o impacto da estiagem é que não vai ter disponibilidade no RS”. “Vamos precisar nos abastecer de outro estados, da Argentina e do Paraguai. São ajustes necessários que devem elevar os custos de produção”, afirma ele.

Mesmo com custos mais altos, a importação, portanto, será necessária. Afirma Glademir Luiz Mecca, da Santa Clara: “Vamos ter menos de 3 milhões de toneladas de milho. O Estado consome de 6,5 milhões a 7 milhões de toneladas. Aí tem que buscar fora, com custo de logística, tributário, ICMS”.

Forte calor faz aves e suínos perderem peso

Não é apenas na perda da produção de grãos que a estiagem impacta o agronegócio gaúcho. A onda de calor também faz aves e porcos terem mais dificuldade de se alimentar e de hidratação, fazendo com que os animais percam peso.
Pedro Luis Utzig, criador de frangos de Morro Reuter, afirma que suas aves perderam de 12 a 15% do peso devido ao calor.

Segundo o presidente da Asgav, José Eduardo dos Santos, “o calor afeta a conversão alimentar das aves”. “além da diminuição do peso, ainda, com esse calor excessivo, já tem mortalidade. Não podemos estimar o quanto, mas tem. O calor afeta o rendimento e estressa a ave”, relata ele.

Para o gerente de suinocultura da cooperativa Santa Clara, Glademir Luiz Mecca, a temperatura ideal para as granjas de porcos seria de, em torno, 25ºC – muito diferente das temperaturas que chegaram a 40ºC em algumas cidades gaúchas nas últimas duas semanas.

“Nesse calorão, os animais não estão consumindo e o ganho de peso diário cai. O peso de abate já está sendo influenciado e, consequentemente, vai cair oferta de carnes. Pelo 10kg no peso de abate com certeza vai cair. Os porcos de 130kg estão chegando a 120kg. Podemos estimar em torno de 10% mais magros”, afirma Mecca. A suinocultura também deve ter registro de mortandade em função do clima quente.

Fonte: Suinocultura Industrial

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